Wednesday, April 18, 2012

sem título

Friday, March 30, 2012

Thursday, January 19, 2012

sms

Tuesday, July 26, 2011

filme

Wednesday, July 06, 2011

Tuesday, May 03, 2011

cutting temporary shelter for branches

Sunday, March 06, 2011

rasteje o corpo à procura dos ossos

Monday, February 28, 2011

era um 4'33'' com muito barulho, se faz favor

(isto não são palavras)

as pessoas vivem à espera - que é como quem espreita. ouso mesmo dizer que as pessoas vivem porque esperam ou esperam toda a vida ou ainda vivem para esperar a vida que nem sequer espera por nós - olha-me ela adiantada, já nem se vê, xi, tão longe vai a vida. é passar-lhe uma rasteira, mas não, deixam que dê a volta e as apanhe, a vida à espera das pessoas isso é que não. ela que nos apanhe se quiser.
acabaram-se-me as palavras. pronto, acabaram as palavras. as palavras acabaram. total e definitivamente. ainda bem que não tenho livros para escrever, que sorte, sem livros e sem palavras. é.

Friday, February 25, 2011

dobragem (do estômago, dos joelhos, das mãos...)

Friday, February 18, 2011

I'm heading the opposite way

Thursday, February 17, 2011

instruções para respirar sem ar

tira-se o ar e depois respira-se.

nota: se for um peixinho, substituir o ar por água.
(estranho, tenho as unhas desfalecidas...)

Monday, February 14, 2011

pradaria

Sunday, February 13, 2011

partindo de um acentuado arrefecimento nocturno

Sunday, January 30, 2011

as coisas pequeninas que são. risíveis.

Monday, November 29, 2010

refazendo para depois dormir e acordar e refazer, dormindo

Wednesday, November 03, 2010

Monday, November 01, 2010

baseada em rebuçados verídicos

tenho uma história para te contar.

Eu e o meu irmão mais velho fomos a Barcelos, num passeio escolar. Andávamos ainda na primária e era como se fôssemos à lua. Na noite anterior à viagem não preguei olho. O meu irmão pregava olho sempre, mesmo debaixo do fogo do cobertor eléctrico ele mantinha o olho pregado.


A minha mãe preparou merenda para ambos e deu-nos algum dinheiro - imagino que pouco porque o dinheiro era sempre pouco e muito cerimonioso.


Do passeio lembro-me de um jardim que julgo ter sido o da merenda e de irmos de volta para a camioneta, em atabalhoada fila indiana.

Lembro-me também de poupar as moeditas para comprar um bonito e vistoso galo de Barcelos à minha mãe. Já o meu irmão gastou quase todo o dinheiro em rebuçados e guloseimas e risos e cambalhotas e achou que um galo minúsculo era um galo na mesma.

Levei o meu galo embrulhado em papel manteiga na primeira classe do colo, protegido na pessoa orgulhosa do seu sacrifício de amor.


Foi com esse exterior que o dei à minha mãe, sorrindo de orelha a orelha, com os olhos também. O meu irmão abriu a palma da mão e de lá saiu o seu imperceptível bocado de barro colorido - e creio que nesse momento pedi um abraço maior, um beijo mais apertado, mas tal como a merenda e o dinheiro igualmente repartidos, também os afectos foram de mãe, indiferenciados.


Os galos pousaram na janela da cozinha, lado a lado, e eu comia a fruta ou a demora da sopa a olhar para a desproporção daquelas figuras e acreditava que o meu era mais bonito e que até o silêncio de uma mãe concordaria comigo.


Um dia - lembro-me tão bem do som - os galos cairam da janela, subitamente aberta por uma corrente de ar. Uma corrente de ar, é o que basta para acabar com o amor que traz um galo de Barcelos. Aos pedaços coloridos no chão. Só um deles estava inteiro - e um pedaço inteiro despedaçou-me o coração. Era o pedaço-galo do meu irmão que naquela
janela posou durante muitos anos e calculo que ainda hoje, onde quer que se tenha perdido, esteja inteiro, tosco, um olho abaixo e outro acima, preto às pintas, sujo ou enterrado. Inteiro.

Da minha mãe, uns pêsames de mão nos cabelos, o beijo de consolação no sal de uma cara deformada. E depois seguiu talvez pensando que, como tudo, também isto eu esqueceria e, parecendo que sim, não, continuo a querer dar belos galos que, invariavelmente, se vão.



conta-me uma história.

Monday, August 23, 2010

entes aquáticos

aí vêm as caravelas - fui ver ao dicionário online. As caravelas dedicam-se a queimar crianças nas caldas da rainha e eu nem sabia que havia praia que as aportasse nas caldas da rainha. não me demorei muito no dicionário para perceber as caravelas. os dicionários nunca dizem a verdade. os online não são nem menos nem mais. as caravelas só são portuguesas por serem nocivas e isso diz-me o suficiente para não deixar as minhas crianças queimarem-se no mar das caldas da rainha do dicionário.

Tuesday, August 10, 2010

água mineral carbonizada

Ter-te assim desalinhada nas palavras que usas como se fossem tuas, chegada da semana apocalíptica do Gerês. Fogos tirados das tintas do Bosh. Naquelas montanhas da garrafa do Fastio e das outras tapadas pelo monte pequeno que colado à aldeia esconde tudo o que se eleva em muito à sua dimensão rasteira.

Deixando os fogos irrespiráveis para trás, apareces-me tu à frente assim, como dizia, e incendeias-me com essa atitude inflamável na sucessão dir-se-ia que aleatória de mais de cinco palavras, mais de três frases, muito mais até parece que me sentias a falta e eu desisto logo.

Abro o tasco por isso senta-te e pede.

Monday, December 21, 2009

Saturday, September 05, 2009

lost in red nails (a body painting to refuse)

Wednesday, June 17, 2009

recapitulando sobre as barrigas

Um homem tosse quando arrota e acha seu o valor do peido alheio (cheiro inteiro de outro compatriota).
Mas não permite dele vestígios no meio da horta de sua mulher que casa sua comporta.

Senta o seu suor a jornal e a sexo extra-conjugal no sofá, deita-o na cama, janta o suflé de quem faz de conta que ama.

(da mulher tudo se sabe. está tudo à vista nas revistas. o homem fecha os olhos e vê umbigos, sortidos, coloridos e da mulher só sabe o que tudo se sabe, se contou se disse se via ainda que montanha alguma parira.

A mulher agradece e padece e obedece. Mas ela mesma fugiu desde a primeira vez que o viu.)

Saturday, June 13, 2009

http://ubu.com/film/farrokhzad_house.html

Friday, June 12, 2009

estuário

a senhora de verde acordou
- retocou a cara com blush e um espelho -
e voltou a adormecer achando-se viva.


Monday, June 01, 2009

um fundo negro do ponto num colchão

P,

antes que comece a utilizar o vosso estimado colchão para cenas de pugilato frustado (sim, tem tudo a ver com o último episódio da arena portuguesa mais execrável do nosso país, que é qualquer pseudo-noticiário, que nem pseudo é, que ponha uma besta a tentar fazer-se passar por jornalista e a fazer passar o jornalismo (se é que tal coisa existe!) por ela própria, logo a negá-lo aos demais que o entendem escrupulosamente (se é que tais seres existem!) e a chamar estúpidos aos estúpidos que ainda ligam o canal a pensar que mudaram de telenovela (sem ofensa) para telejornal e que a deviam processar por danos intelectuais, mas que perderiam porque está provado e é do conhecimento público que na tvi só há telenovelas (sem ofensa) e freak shows e toda a política populista agarrada ora a uma ora a outra e porra, ou eu me engano muito ou ela só desfez o que pretendia fazer e isso sim, deu-me goooooozo! - a continuar assim, o sócrates ainda leva com uma maioria absoluta e, primeiro, esse é o lado amargo do gozo e, segundo, eu engano-me muitas e tantas vezes. badamerda para o fmi e badamerda para a mmg que nem é nada relativamente a tudo o que simboliza e que me atormenta ainda e era ver-me a ver "a coisa" vulgo "entrevista" com uma atitude que nem no futebol contra o benfica ou contra o manchester ou contra o milan (ou a itália em geral) ou contra o scolari me apanharam alguma vez, tanto que até eu estranhei quando comecei a transpirar e a sentir que algumas batidas cardíacas começavam a falhar o ritmo das outras ...ou vice-versa, que nestas coisas de desritmo cardíaco nunca percebi bem os critérios que levam a apontar umas em detrimento de outras).

e, posto isto, e antes que em vez do signo colchão veja o símbolo mmg, perguntava-te se amanhã poderia levá-lo, lá p'rás horas de depois da janta, antes de irmos todos tomar uma cervejinha gelada, para arrefecer ânimos e voltar a amansar, que é como somos os mais lindos de todos.

pode?

Friday, May 29, 2009

sonoro

Sunday, May 17, 2009

os melhores presentes são os que nos chegam sem aviso

Wednesday, May 13, 2009

Caetando este dia

Tuesday, April 21, 2009

Wednesday, April 15, 2009

pocket hole 5

neve lava a luva leva a
leve neve lava a luva leva
a leve neve lava a luva
leva a leve neve lava a
luva leva a leve neve lava
a luva leva a leve neve
lava a luva leva a leve

pocket hole 4

nu é o contrário de vestido.
nu é o contrário de tapado.
nu é o contrário de protegido.
nu é o contrário de coberto.
nu é o contrário de forrado.
n é o contrário de u.

pocket hole 3

os peixes bocemeiam em bolinhas de ar. eles bocemeiam o mar, nós bocejamos uma grande corrente de ar - entrar para dormir, sair para acordar - ao que chamamos bocejar.

pocket hole 2

nu vem o mar quando o mar cai da nuvem.
nu vem do céu vestir a terra pondo a nuvem o manto nela,
nu da nuvem cobrindo ele o chão da terra.

pocket hole 1

entre tanto tempo ter
entre ter tanto
tem pó
pousado

Friday, April 10, 2009

a adília também quer saber quem raio és tu

a mesa tinha:

um copo de cerveja, mas ainda sem cerveja;
uma garrafa de cerveja, 33 cl, cheia;
frio;
um prato de amendoins torrados e intactos;
sol às vezes;
uma taça cor-de-laranja-ora-pálido-ora-fogoso de plástico vazia;
um prato com duas divisões: design especial para os tremoços inteiros e o que restará deles no final;
nuvens que dão à mesa diferenças no tom pardo que sempre tem;

o mar ao fundo e a razão que paira no ar sem definitivamente pousar.

os meus olhos, quando fitam os teus que olham os meus com pressa, são olhos de cão. mas são os teus que fogem. na escrita é diferente: os meus inventam os teus e os teus, implacáveis, entram-me até às coisas que mexem por dentro e eu só posso desviá-los para continuar a inventar as horas:

de encontro;
de chegada;
de espera;
de espera mais um bocadinho;
de saída;
de desencontro.

oh desculpa.

não faz mal, pelo menos não apareceste.

amanhã, o que fazes?

amanhã tenho uma razão a que não sei dar destino. por acaso não tens lá um canto onde ma guardar? é só o tempo que puderes, prometo!

Wednesday, April 08, 2009

não se é artista quando se gosta de futebol e isso é um alívio

Escrevo em pedaços de papel desde que me sei, mesmo que a minha memória seja sempre de desconfiar.

Era criança e escrevia à minha mãe e escrevia ao meu pai.
À minha mãe escrevia nos anos e no dia da mãe. Mas nunca o que me mandavam escrever. Escrevia quando lhe roubavam o envelope do dinheiro e deixavam a carteira intacta, ainda que esta tivesse uma nota a sair como isca para que os ladrões não levassem o envelope do dinheiro a sério numa loja com saldos na rua de Santa Catarina antes de ir comprar os cortinados para os quais tinha poupado não sei quanto tempo, só sei que a poupança se guardava em envelopes brancos e suspeitos. Escrevia para que ela não chorasse porque as mães não devem chorar, toda a gente sabe e, desta vez, toda a gente sabe mesmo porque toda a gente teve, em algum momento, uma mãe.
Escrevia ao meu pai quando o meu pai fazia anos e escrevia no dia do pai, mas nunca escrevi o que me era mandado escrever. Ao meu pai escrevia também em bilhetinhos que deixava em cima do aparador de pau-preto que veio no navio de Angola e que ficava à saída do quarto deles, aos quais ele me respondia prontamente num outro bilhetinho em cima do mesmo aparador que ainda existe, ainda no outro o dia o vi, imóvel como sempre dada a excelente qualidade da madeira, e tudo isto para dizermos um ao outro o quanto nos amávamos às escondidas, porque aparentemente dávamo-nos como o azeite e a água se dão.

Uma vez escrevi assim num papel que decorei porque, ao que parece, gostei muito e achava que fazia mesmo sentido (e, desculpa, vou-me rir antes um bocadinho, pode ser?):


Já está.


Não, agora é que já está.



voo voo.
por muita altura que atinja
jamais poderei sentir o enjoo
e ai de mim que finja
nestas asas não caber.

sinto a brisa quente
mas seria-lhe incapaz de morrer.
porque é tão vago, tão mancha
o momento de a não sentir.



Pffffff! Santa paciência!
Esta inaugura uma data de folhas que espero se tenham perdido no meio de tudo o que guarda o meu pai e se lembra a minha mãe.

Nunca fui muito boa a escrever porque até a mim me aborrece ler o que escrevo.
Pior só os formulários que preencho.

Tuesday, April 07, 2009

olha, não estou grávida mas às vezes dá-me vómitos

e faz-me o favor de ler "O Professor Sentado" e "O Guardador de Retretes"! - depois de me livrar da Adília vou afogar-me em doenças lusas, para ver se ganho defesas. e vou ler estes livros em voz alta, para que me ouçam as crianças invacinadas e para que todos aqueles que se sujam e crescem à sombra do Esquema se identifiquem e se vomitem de asco! 25 de abril uma ova! o zé mário é que tinha razão!

o noivado é como o purgatório

Apetece-me celebrar o nascimento deste blog.

Já lá vão alguns meses e ele cada vez menos resistente à paragem de todas as coisas, como sabíamos que teria de ser. Mas foi o motivo que o originou que agora muda. Primeiro teve o motivo que sabes. Depois o motivo tinha vontade de esperar. Depois esperou. Chegou o tempo de se perder na identidade e já não era coisa alguma com propósito. Ainda tentei o trespasse, mas a crise. Agora começo a pensar se seria mal pensado um ressurgimento do blog. Em que circunstâncias? Sabes que não sou capaz de te abandonar. Mas sou bem capaz de te fazer acompanhar de um copo de vinho, seja ele bebível ou só inebriante.

Então fazemos assim.

Eu continuo o que houver, sem compromissos, porque isso é condição genética do blog - e foi isso mesmo aliás que invalidou algumas propostas de trespasse das quais só teria a ganhar. Continuo o que houver, mas as missivas terão os destinatários que me aprouver no momento. Sabes que sou movida a paixões, que são mutáveis e ainda bem. Enquanto as anteriores se sedimentam numa espécie de amor ou, pelo contrário, se evaporam em direcção a uma desmemória, as presentes estão à mercê do vento que as estuda lenta e corrosivamente. E eu quero isso ainda.

Então mudará tudo porque já não terei respostas tuas. Ou sim, se notares que ainda são para ti.

Monday, April 06, 2009

tenho adormecido com a adília.
mas parece-me que estando eu a dormir ela continua acordada.

dormir com a adília significa acordar com ela, também.
e é assim que acordo com uma voz que me diz naquele tom jocoso.
a minha voz reagrupa continuamente pedaços inteiros.
a dela desarruma.

e é deixar-me desarrumar que eu quero como prenda de aniversário.

por isso resolvi que vou para um quarto de hotel. se alguém me pagar a estadia.

achado sem data numa data com dia


(desenho do lucas, 2 anos, no tux paint)


há pais que.
há mães também que em risos.
e até que.
descubram o escuro debaixo.
em baixo.

quantas mais crianças se.
quando de repente
envelhecerem os pais que
as mães que também em risos.
e as crianças se.
esquecerem de si no escuro
por baixo.
apavorando pais e mães
finalmente tarde demais.

Wednesday, January 07, 2009

encontrando o meu rosto

Thursday, November 27, 2008

um por dia dá... não, um por semana? ...Um - aqui e ali

Tuesday, November 25, 2008

as sombras arranham-me as costas

Tuesday, November 18, 2008

ser-se ridiculamente novo

Monday, July 21, 2008

amplitude

disse-te se tivesse amor para dar

e entretanto passou o som de uma famel pela minha rua e obrigou-me a contorcer de forma a poder ver a linha do horizonte que vivia na pequena janela do quarto de Quintela e que era ao contrário de todas as outras e tinha a particularidade de se curvar.
por isso é que o mundo é redondo, voltei a pensar.

dir-te-ia que te amava

e entretanto adormeci porque fechei muito tempo os olhos e deixei que fugisse por dentro, como disseste.
não poderei dizer o que fugi, porque me vejo ainda aqui, mas sei que não encontro o caminho de volta e sei que o terei de fazer para chegar onde ele melhor se afasta.




quando acordei, de noite

( para vivê-la com quem a vive )

soube que tinhas razão e, por isso, vim cá pedir-te que acendas o resto da luz.






Wednesday, July 16, 2008

Bela Adormecida

Sunday, July 06, 2008

a queda

Quando este grito interno grita internamente.

Quando esta vontade nascente desagua dentro.

Quando estas nuvens de chumbo apenas se adensam e não há chão onde cair estilhaçar desfazer-se em nadas pequenos que se colam às solas dos sapatos dos outros, no pêlo de um cão, no chão mais escuro de um buraco e se esquecem de onde partiram para onde vão.


Quando as palavras saem.
E não dizem o que dizem. E não mostram o que mostram. E se prendem umas às outras pelos largos espaços que as afastam. Tanto que se esgotam em todas as combinações possíveis. E está tudo lá ausente.

Quando sussurro – sem mãos para não dizer duas vezes, que em duas vezes já se dizem espaços pequenos entre o que se diz –

só para brevemente sair.

Monday, May 12, 2008

amanhacer

Mmmmm mm mmm mmmmmmmm-mmm

Mmmmm mm mm mmmmmmmm-mmm

Mmmmm mmm mmm mmmmm m-m-mmmmm


Mmmmm mm mmm mmmmmmmm-mmm

Mmmmm mm mm mmmmmmmm-mmm

Mmmmm mmm mmm mmmmm m-m-mmmmm


(passos poucos, aveludados, entre cá e um pouco lá

respiração breve, ausente somente presente em gestos que se estendem entre a porcelana e o tampo de cedro

e o cheiro da idade do cedro inteiro)


Mmmmmm mmm mmm-m-mmmm

Mmm...


(silêncio contido no olhar horizontal – o gesto fá-lo por fim oblíquo e

a pequena luz que se empoleira se tenta

se esquiva se retrai

se era)


(o cedro no tampo tem a idade daquela canção que tem idade incógnita que se saiba)


(descem os passos e permanecem para sempre iguais os objectos em porcelana partida colada perdidas partes concretas num vazio de oco no entanto escuro de adivinha

calada sobe o rosto em fragmentos se compõe sacudida da idade

só do espaço vertido na mais calma pulsação antecipa a demora

apressa a espera de todos os anos da sua voz, desde que foi voz

ainda som

sem palavras)


(e tudo isto

urdindo deva

gar

ante os espaços negros das porcelanas respeitados como é a noite depois do dia depois da noite e das estações em roda

do entendimento de todas as coisas

menos as coisas todas

aceites assim, desconhecidas não ignoradas)


Mmmmmmmmm mmm mm m-mmmm

Mmmmmm-mm mmmmmmmmmmmmm


(um sapato enterra-se melhor calçado e estes sapatos tenho de os caminhar mais esta vez – pensou)


(daí o som da pele do cetim e depois o soalho rangeu pela última vez naqueles ouvidos recheados de melodias hereditárias)


(tinha filhos que choraram tinha tempo que viveu e findo este)

morreu

Monday, March 10, 2008

Saturday, February 02, 2008

gimme the mermaid -- hard!

para os barbies e zeppetellas da minha vida

gajo, isto é indecente.
encontra uma pessoa o amor e acha-se logo apoderado da unilateralidade do apartamento para o resto.
isto é medonho.
sentir uma pessoa um amigo em quem não encontrou o amor e sentir-se bem com isso, apenas por medo puro ciúme de o perder para o outro que nem sequer bateu à porta.
isto é frustante.
lançar uma pessoa a sua líbido e simpatia grudante durante tanto tempo e depois ser descartada sem um aviso, um postal ou lembrete de vez em quando.
isto é ultrajante.
ter uma pessoa que vir humilhar-se na praça pública por não saber mais por onde há-de lançar apelos a reconsiderações.
isto é triste.
acabar a semana e não ter uma pessoa um convite para o final dela em festas e copos e conversas vertidas.
isto é desumano.
uma pessoa ter um cão que a trata bem melhor que isto.

Monday, December 17, 2007

Tuesday, December 04, 2007

Os peões portugueses agradecem sempre que, dentro do seu direito a atravessar nas passadeiras, atravessam porque alguém, num carro, permitiu que o seu direito a passar fosse respeitado, parando e dizendo paternalmente vá passe com a mão e às vezes com um sorriso de palavrões por detrás de tanta amabilidade. Mas não vim cá falar-te sobre isto. É que quando deixei passar a senhora de cabelo curto, vindo talvez de uma calvície forçada, pensei que também eu agradeço e apresso o passo, para não fazer esperar quem fez o obséquio. Pensei que isto pudesse gerar uma sinalética cultural, que se perde algures nos tempos, e só assim deixar de representar o eterno curvar-se, desculpar-se, o submeter-se que agora carrega em si. Porque é uma coisa bonita, os carros deixarem passar, mesmo que estejam obrigados a isso, e o peão agradecer, como quem cumprimenta no século passado quem por ele passa. E estava eu metida com o estendal e a roupa que ressequida se aquece ao sol e disse porra, tanta coisa tenho eu a dizer-lhe e perco tempo com a roupa que resseca no calor do sol, que sendo inverno podia morrinhar e justificar a roupa estendida tanto tempo e depois vem o raio-x às ancas antes dos 8 meses da criança e depois, se quiser, vem a recensão crítica ao artigo do blindspot ou ainda a ilustração que me impacienta as noites, quando a imagino ilustrada e afinal foi tudo um sonho e esta música que tanto é Mozart como é Arnaldo Antunes a puxar para que me sente e dê o prazer de me sentar para ti, que mereces tantas imagens das que trago cá dentro, para os textos dos que respiras para fora, e ainda os outros todos que esperam alimento. Só que, finalmente abandonando a roupa que agradece ressequida rente ao sol, venho falar do gesto nas passadeiras dos peões e de como as pessoas.

Wednesday, August 29, 2007

(des)apontamento

Wednesday, July 11, 2007

gostas que te olhe por dentro e te obrigue a extraires-te devagarinho.
eu gosto de te extrair e viver o que sei por essas histórias tuas e de ir mais além e dar-te o excesso e ver-te gozá-lo quando olho para dentro de ti e me extraio excessiva e expiro e inspiras.

gosto de saber que estás por detrás daquilo que faço e daquilo que ainda não fiz e ainda do que nunca farei e redundar profunda nos erros.

gosto da tua perfeição desorganizada. da rigidez do teu caos.

Monday, February 26, 2007

sujeito indefinido

Querida usurária.
Em toda a minha vida. Aquela que não sendo só minha é minha por definição. Não encontrei ninguém que fosse às riscas. Apenas tu. Entrando no edifício. O tal onde fica o canto que te arrasta do outro. O grande minúsculo canto. Vejo-te ao fundo e chego-me sem te tocar e cheiras a opaco de cor. Vou escorregando no som da alcatifa. E é só isso que me vês. O som da alcatifa. Portanto és cor. Digamos. Cor que resulta de todas as outras cores sem seres negra. (Porque negra sabes ao frio do mar. E pelo mar não se aventura qualquer um.) Mas se vou escondida através de trás de tudo e tocas-me sem me chegar. Tocas-me de vermelho. Pode ser. És tu quem vem e me toca e até se transparecem as cores de forma que és às riscas nos outros momentos todos. Quando sei que existes às riscas. Transparente às riscas. De que cor. As riscas?
Transparentes.
Às riscas.

rumo sem passeio

passos sem olhos são os passos que tenho. de passagem vem a aragem, miragem dos olhos que passam passando sem encontrar. olhos abertos, despertos. concretos. vêem sem cessar os caminhos que não chegam a passar. nas esquinas há sempre quem passe sem cruzar, quem olhe sem ver em quem se vai deter e com que corpo acordar.
mente-se no casamento do casal casado. em minha casa tenho um casaminto, diz a cara-metade cansada de cada caso tido. descaradamente minto.
é um caso sério, encontrar o que sinto.

Thursday, February 22, 2007

um homem segue no comboio. vê-se logo que segue no comboio um homem que segue nos seus olhares escondidos cada pessoa que no comboio segue sentada sem se desviar do que segue passando pelo comboio. não desejam ser perseguidas por olhares escondidos do homem que segue no comboio olhando vezes seguidas pessoas consecutivas que sentadas seguem no comboio em seguimento sem olhar ao que segue o homem que não segue lá fora seguindo dentro do comboio alguém que não se segura e se sente muito seguido pelo homem que o segue e decide satisfazer o seu sétimo sentido e sová-lo no seguimento da sensação de ser seguido pelo olhar escondido do homem abalroado atordoado que, cego, segue sem saber porque raio no comboio alguém lhe foi bater.

Saturday, November 25, 2006

amores folhados, o blog

querida dulce epopeia,
o teu blog dependerá de corações tolhidos por acidentes calculáveis, mas também de quem não calcule que os tenha, aos corações tolhidos -- e quem não tenha que atire, nesse teu lugar, o primeiro foguete festivo. acho. o lugar não é meu. eu apenas o invejo porque não tenho onde guardar o meu amor que se tolhe quando não o encontro e, no entanto, sei que o tinha ainda agora, à minha beira, aqui comigo ao pé de mim.

Wednesday, November 22, 2006

no lugar de

Sunday, November 19, 2006

para a loba dulce epopeia

a loba branca banqueteava-se esbafurida lambendo o beiço babado no lombo tombado. (homem-formiga já pouco fazia à fantasia fetiche da loba infiel à filantropia.)
agora desafia quem passa: a dona loba não ama quem caça.

Thursday, November 16, 2006

q.b. (numa tradução livre)

não posso não consigo não aguento mais
ando à voltas sobre mim e o tempo não escorre. é sempre um segundo antes do próximo e não passa dele mesmo. se ao menos um botão se soltasse, um cordão se desamarrasse eu me dobraria em cócoras sobre eles sem, a seguir, me poder levantar e a seguir? outro cordão? uma formiga que pudesse ser exterminada, talvez. o chão que irrompe numa fenda e finalmente haverá caminho para a china a partir deste lugar. e pensar sobre isso seriamente e certificar observando minuciosamente o chão e a sua fenda mínima, se a fenda não é um princípio do fim, um terramoto embrião porque se fosse a valer os segundos escorreriam debalde mas escorreriam, chegariam à sua foz como chega o rio de são pedro de moel no FMI do zé mário que alivia mesmo mesmo. mesmo se por uns ávidos e míseros segundos adiante do anterior que não passa e eu não posso, talvez deixar-me ir tragicamente e ser a luz para todos estes olhares como foi o meu sorriso largo na 1ª comunhão, para desviar as futuras atenções do meu irmão fotografado, amarelo e descaído, sumido por dentro do sorriso que lhe emprestei, largo para que coubesse e que jamais nele coube a definição de heroísmo e nem sequer para que dissessem olhem que rico sorriso é pura alegria, transcendental, divino, não há dúvida de que foi tocada a menina é dotada de tragédia venha o sacrifício seguinte e a vir não seria nada mais do que não comer o bolo da comunhão que saiu pequeno e as bocas em aleluia pecavam por excesso mas, pelo menos, serviu o seu invisível propósito altruísta que ainda hoje se guarda em silêncio. o meu irmão safou-se de ser a luz patética, fui eu por ele agora trago-a sempre comigo para safar imagens puras de pessoas que a têm inteira. o meu irmão da primeira comunhão descaiu-se, amarelou-se, mas libertou-se da dor aguda que sou eu inteira e todo ele é luz que ilumina sem mácula e toda a gente diz que rico rapaz baixando os ombros, diagonando o olhar e cruzando as mãos em admiração e eu presa aos segundos por trás da porta fechada, talvez tenha morrido quem a fechou e esse trágico acontecimento se torne a luz e não eu daqui a instantes se os segundos passarem para a frente em avalanche sem que a porta com o defunto se abra e eu retida entre a porta fechada e os segundos congelad s.s.. s...
um sorriso veio da porta, vivo não morto, lentamente veio vindo da porta, sorrindo, penteando a madeixa que se misturara com as faces rosadas. lentamente rindo vindo sem sair da porta aberta. eu sem me mexer mexi-me com os passos hirtos da porta e o sorriso loiro, rosado, belo estremeceu recuou, caiu deixando rastos de cabelo flutuando no ar, lentamente pousando no chão com os restos do sorriso, iluminado estendido desfeito no mesmo lugar onde eu nos segundos parados atrás me retive e contive, até que resolveram avançar e obrigar-me a aliviar, ali mesmo, a bexiga.

Monday, November 06, 2006

berenice


berenice contrafeita seguiu ao lado dos seus braços desfeita, nenhum valor maior ditara sua desventura, fora amada apenas na lonjura, quando a dobrara a curva, prestes a entregar bravura fora sem piedade vítima da sua própria travessura. eunice dizia eu, era longa, e seu peito de grande alvura, tropeçava em seus curtos passos e fitava longe semicerrando os olhos, porque a consumia uma negrura, palpitante atravessara o paço e fundira-se à ideia de desfalecer em seu regaço, mas o príncipe poupava-se a embaraços, amores confessos queria-os escassos. alice baixou os olhos, estremeceu, de seus braços não sobrava nada seu, o cabelo pendia-lhe sem brilho pela face, tossia para não ouvir o grito do seu coração em mil pedaços. soubera ontem o que hoje lhe levava a paz, e teria serenado quando todo o mar por si reclamara, se o tivesse apenas pressentido. porque não possuir o seu amor é veneno do mais temido. alicia fez caminho do lado oposto do rio, ainda procurou seu rosto ao longo do navio, mas sobrava apenas mágoa de tão débil desafio, fora vã toda a lágrima, todo o sorriso sem trilho. no ventre formava-se turva da dor ida, ira ficava, pobre razão matava. patrícia vingou simpatia, amoleceu coração em toda a travessia, olhava altiva para qualquer criatura e depois de a fazer amar em agonia, desferia o golpe e sorria com mestria. fenícia partiu, não tornou ao cais, não olhou qualquer navio, quando seu cheiro se turvava, cobria o rosto longo com um véu e não respirava. nenhum mal de amor tornaria a atormentá-la, amor mal em si ficara. distraída todo o instante lhe dedicara, a travessia era deserta, e qualquer dinastia incerta.

amanhã iremos de comboio

sim amanhã partimos, eu vou à frente para desbravar caminho, mas esperarei por nós no velho moinho. sim, cantarei pelo caminho, e pedirei que te traga o destino.

No início a casa arde

O ferro ficou a queimar tecidos que precisavam de uma urgente unção. Espero que se dirija a mim, no quarto de cima, fugida da inevitável salvação dos pecados que não quero salvar.

Sunday, November 05, 2006

os truques do arco da velha

deu-se que a necessidade fez o monge e eu fiz-me por necessidade.